
Estamos na semana em que o mundo celebra o Dia Internacional dos Trabalhadores. Em todos os anos, desde quando em 1º de maio de 1886 milhares de trabalhadores fizeram a histórica greve de Chicago, nos EUA, pedindo redução de jornada de trabalho de 17 para 8 horas diárias, esta data é o momento de lembrar a importância do trabalho e dos trabalhadores para a economia e o bem estar da sociedade.
Porém, neste 2026 em que o mundo anda envolvido em tantos conflitos (de todas as ordens), cabe uma discussão mais complexa sobre o futuro do trabalho. Os avanços em Inteligência Artificial se tornaram exponenciais, e já não é mais possível negar o impacto que estes sistemas terão sobre o mundo do trabalho e a vida dos trabalhadores. Estará o trabalho humano condenado a deixar de existir? Caso sim, como os bilhões de trabalhadores do mundo poderão manter sua dignidade?
São questões profundas que vêm sendo objeto de intensos debates acadêmicos e nas redes sociais. De fato, é provável que muitas funções laborais hoje ainda desempenhadas por seres humanos passem a ser resolvidas por uma combinação de robôs e sistemas de Inteligência Artificial. Na opinião de muitos especialistas, a maioria das substituições acontecerá em funções de trabalho repetitivo e reduzível a fórmulas.
Porém, já se verifica um fenômeno curioso, que de certa forma dá uma cara nova ao fenômeno de substituição do trabalho humano por máquinas. Antes, o trabalho repetitivo na economia fordista industrial, que, de fato, foi em grande medida substituído por máquinas, se resumia a funções braçais e manuais. Hoje não: há muitos relatos de serviços “de escritório”, que sempre foram considerados trabalhos intelectuais, em processo de substituição por sistemas de IA.
Se isso avançar, e isso é dado praticamente como certo, o que poderá acontecer com os demais trabalhos, funções e profissões que até aqui eram consideradas como “trabalho intelectual”? E nesse horizonte de dispensa maciça de trabalhadores, como ficará a questão da sobrevivência das maiorias sociais? Um sistema de renda básica universal será suficiente (ou mesmo exequível) para solucionar um problema dessa dimensão?
Há outras perspectivas, contudo, menos apocalípticas. Se é verdade que o ser humano será afastado de certas possibilidades de exercício profissional e laboral, também é verdade que sua natureza não se altera. O ser humano é um ser criativo; sua inquietude essencial o leva a transformar a natureza constantemente, extraindo seus potenciais e os transformando em utilidades para a vida social. Talvez aí esteja a resposta: se tivermos as demais utilidades atendidas por máquinas e sistemas, quem sabe não seja a hora de transitarmos para criar outras utilidades, outros valores?
E que valores podem ser esses? Ora, possível que o trabalho humano seja gradualmente direcionado para atividades criativas, de ordem artística, educacional, filosófica, altruísta e moral. Claro, resta o problema de como tudo isso pode se tornar um meio de sobrevivência digno para as maiorias. Aí entra a parte estritamente econômica da discussão. Nela, estamos afetados todos, mas com particular relevância os trabalhadores do Estado, que vamos precisar imaginar, planejar e implementar as novas políticas que resguardem o mundo do trabalho.
Seja lá que evolução tudo isso vier a ter, é certo que precisaremos de uma rede de proteção social situada no Estado, no mínimo para amortecer os impactos da transição. Além disso, o Estado precisará estar atento e usar de toda criatividade institucional, política e econômica para responder o clamor da sociedade por uma nova organização. Enquanto esse novo contexto não termina de chegar, feliz Dia dos Trabalhadores!