Gasto do governo alimenta inflação

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Autor(es): VICTOR MARTINS

Desequilíbrio nas contas públicas dificulta a tarefa do Banco Central de conter os preços. Alta de juros é a consequência

Combustível para a inflação, o gasto público em excesso se transformou em um vilão silencioso que corrói o orçamento das famílias. Segundo especialistas, o governo não fez o dever de casa, desembolsou mais do que tinha em caixa, pegou dinheiro emprestado no mercado financeiro e, agora, a sociedade paga a fatura dessa gastança: inflação subindo e juros em trajetória de alta. Nesta quarta-feira, segundo a expectativa dominante no mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, deve aumentar a taxa básica (Selic) para tentar colocar um freio na disparada do custo de vida.

A preocupação com os gastos públicos descontrolados é patente em documentos do próprio governo. Relatórios do BC já manifestaram várias vezes receio com o efeito da política fiscal expansionista sobre os indicadores de inflação. A ineficiência e o desperdício são outro aspecto do problema. O poder público, por exemplo, não faz ideia do tamanho da frota de carros que possui e de quanto gasta para mantê-la, conforme mostrou reportagem publicada na edição de ontem do Correio.

Os economistas explicam que o gasto público se torna um problema quando ocorre em excesso. Se desembolsa recursos em volume superior ao que arrecada, o governo expande a quantidade de dinheiro em circulação na economia. Sem a contrapartida da produção e do aumento da oferta de bens e serviços, isso tende a produzir inflação. No Brasil, sem confiança dos rumos da política econômica, as empresas não estão investindo o suficiente para elevar a produção. Em 2012, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mesmo com as medidas de estimulo adotadas pelo Planalto, os investimentos caíram 4%. Diante desse desequilíbrio, o BC se vê pressionado a subir os juros para evitar maior descontrole inflacionário.

As despesas com custeio da máquina pública são crescentes no país: passaram de R$ 42,3 bilhões no primeiro bimestre de 2012 para R$ 51,7 bilhões em igual período deste ano — um desembolso 22,4% maior somente para manter a burocracia em funcionamento. Com despesas dessa ordem, o governo não vem cumprindo as metas de superavit fiscal. No ano passado, o objetivo era de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB), mas mesmo com uma série de artifícios contábeis usados pela Secretaria do Tesouro Nacional, a economia chegou apenas a 2,4%. A meta de 3,1% foi mantida para este ano, mas o Ministério da Fazenda já admitiu que, mais uma vez, não vai cumpri-la.

Conflito

Com o abandono da austeridade fiscal, as pressões sobre o custo de vida oriundas das despesas públicas podem demorar a se dissipar. Segundo cálculos do Itaú Unibanco, o governo federal deve economizar apenas 1,9% do PIB em 2013. No ano que vem, esse percentual pode cair ainda mais, para 0,9%. “As políticas fiscal e de crédito são hoje muito expansionistas, e isso aumenta a dificuldade do BC na tarefa de controlar a inflação”, explica Zeina Latiff, economista e sócia da Gibraltar Consulting. “Para colocar a economia nos trilhos, seria preciso acionar vários instrumentos. A política fiscal sozinha não seria suficiente para evitar alta dos juros no curto prazo”, pondera. Para ela, a equipe econômica poderia ainda restringir o crédito para arrefecer o consumo.

Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do BC, observa que o equilíbrio fiscal é determinante para o controle do custo de vida no Brasil, mas lembra que ele tem efeitos apenas no longo prazo. Para estancar a inflação atual, não há como escapar de medidas mais urgentes, como a elevação da taxa de juros, pondera. “Medida contracionista demora, não teria efeito neste ano. Segurar recursos orçamentários na boca do caixa também não adianta, porque o dinheiro tem que ser liberado em algum momento. A única coisa que vai conter a inflação agora é dar um sinal mais nítido de que a política monetária será usada para conduzir a inflação na direção da meta de 4,5%”, orienta.

O Ministério da Fazenda e o Palácio do Planalto tentavam evitar o aperto monetário com medo de prejudicar ainda mais a atividade econômica. Segundo Zeina Latiff, esse receio é infundado. “O crescimento hoje está sendo penalizado pela inflação mais alta. Não há conflito de escolha, no curto prazo, entre inflação e crescimento”, argumenta. Na avaliação dela, a Selic está abaixo do patamar que os economistas consideram de efeito neutro, aquele que permite à economia se expandir sem provocar alta de preços. Por isso, na visão da economista, uma elevação de juros — desde que não seja um aperto muito forte — apenas “retiraria os excessos”. “Vai ajudar a botar a máquina no lugar e reduzir a pressão de custos das empresas. Até o setor de serviços já está sendo prejudicado pela inflação”, afirma. (Colaborou Rosana Hessel)

Tomate eleitoral

Matéria publicada ontem na edição on-line do influente diário britânico Financial Times destacou a alta recente da inflação no Brasil fazendo referência ao produto que se tornou o símbolo do descontentamento popular com o custo de vida. Segundo o jornal, o tomate, cujo preço disparou nas últimas semanas, ameaça a reeleição da presidente Dilma Roussef em 2014. A cesta básica colocou sob holofotes a persistência da inflação no Brasil, diz o FT.