Comissão da Verdade: Após divergências, Fonteles deixa posto

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Divergências recorrentes com outros comissionados levaram o ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles a renunciar ao cargo na Comissão Nacional da Verdade. Depois de uma tensa e áspera reunião na presença de todo o grupo anteontem, a portas fechadas, Fonteles anunciou que deixaria o colegiado. O demissionário enfrentava resistência de parte dos colegas por dar publicidade às ações da comissão. Na conversa de segunda-feira, que durou o dia inteiro, ele disse que chegou ao limite de sua atuação e que não aguentava mais.

Na comissão, Fonteles tinha divergências, principalmente, com o ex-ministro dos Direitos Humanos Paulo Sérgio Pinheiro, que nunca escondeu seu descontentamento com as frequentes revelações públicas feitas pelo ex-procurador da República. Quando sucedeu a Fonteles na coordenação da comissão em fevereiro deste ano, Pinheiro criticou a busca por “holofotes” na comissão. Em fevereiro, Fonteles chegou a anunciar, após revelação de que Rubens Paiva morreu nas dependências do DOI-Codi, no Rio, que em pouco tempo seriam conhecidos os responsáveis pela morte do ex-deputado. Esses nomes não foram divulgados até agora.

O pedido de renúncia de Fonteles em caráter irreversível já está na mesa da presidente Dilma Rousseff. Fonteles não comentou as divergências e disse que saiu por razões pessoais.

– Considerei realmente que o meu trabalho na Comissão da Verdade cumpriu-se, chegou ao fim. Então, entendi por razões estritamente pessoais que era o tempo de encerrar – disse Fonteles, que participou ontem de um debate sobre a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37, que limita o poder de investigação do Ministério Público.

Fonteles reconheceu que as dificuldades internas existiram, mas que não teriam pesado em sua decisão. O ex-procurador disse que produziu 150 textos durante o período em que esteve no grupo. E avalia que sua saída não prejudicará os trabalhos.

Na comissão, Fonteles era alinhado com a advogada Rosa Cardoso, atual coordenadora. A Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, que reúne parentes de vítimas da ditadura, divulgou nota pedindo que Fonteles permaneça na comissão. “A única luta que se perde é a luta que se abandona”, diz a nota.