Eu Fiz: Conheça a trajetória da economista Célia Corrêa

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Mineira de Guimarânia (MG), a economista Célia Corrêa completa 60 anos de idade em 2019. Também especialista em engenharia econômica e administração financeira, começou no serviço público em 1984. Quatro anos depois, Célia entra para a carreira de Planejamento e Orçamento e dedicou 25 anos à profissão, até se aposentar em 2013. Em 1994, filiou-se à Assecor e teve uma carreira – e ainda tem – de grandes conquistas e protagonismo.  

Analista de Planejamento e Orçamento, Célia Corrêa entrou para a Secretaria de Orçamento Federal (SOF) em 1989. Foi ascendendo cargos até ser secretária da pasta em 2007. Ficou no posto por seis anos e foi à primeira servidora a ocupar a função por mais tempo. Além de ser a primeira mulher secretária da SOF.

Em entrevista à Assecor, Célia conta sobre os desafios que enfrentou durante a carreira, as greves que acompanhou, as melhorias que implementou na SOF e como conseguiu conciliar a rotina de mãe com o trabalho.

Clica aqui para assistir a entrevista com a economista

Confira a entrevista completa:

Como foi o início de carreira? Os cargos que ocupou até se tornar secretária da SOF?

Comecei na carreia em 1988 assim que ela foi criada. Na época, eu estava na Secretaria de Planos e Orçamentos do Ministério da Indústria e do Comércio. Entrei no serviço público como economista em 1984. Em 1988 veio a carreira e eu fui transposta de economista para a carreira de Planejamento e Orçamento. Em 1989, eu fui convidada a ir para a Secretaria de Orçamento Federal (SOF) e fiquei até 2013, foi quando eu saí e me aposentei. Ocupei várias funções dentro da SOF até me tornar secretária em 2007. Fiquei no cargo até outubro de 2013. Durante todo esse período da SOF e da carreira em si, a gente sempre trabalhou muito. A SOF tinha uma tradição de trabalhar fora do horário. Ficávamos até muito tarde da noite, virávamos a noite e ficávamos fim de semana. Principalmente para nós que somos mães, isso sempre foi uma situação extremamente desconfortável e desafiadora. Tenho dois filhos e eu cuidava deles dentro desse universo, dessa dificuldade. Sempre critiquei essa desorganização e por a gente ter que trabalhar tanto tempo fora do período do horário regulamentado. Isso era um sacrifício muito grande para todos. Quando assumi a secretaria meu maior desafio era fazer com que as pessoas tivessem um horário de trabalho normal, como qualquer outro trabalhador. Qual era o grande desafio então? Era organizar os processos. Porque todos os processos da SOF têm datas, ou são datas legais ou são datas constitucionais. Era muito fácil diante de uma situação dessa você se organizar de forma que você tivesse a frente do processo e não correndo atrás dele. A gente começou a se organizar e com isso deixou de trabalhar fora do horário. Nós tínhamos, lá atrás, um sistema que era o SIDOR, que foi concebido pelo Serpro. A gente tinha  certa dificuldade. Como as decisões elas acontecem de uma forma muito rápida, você tem que ter ferramentas que possibilitem tomar essas decisões em cima de informações geradas ali rapidamente. A gente sentia muita falta disso. Então nós criamos os SIOPS. Foi uma virada que demos em relação a sistemas, que proporcionou a equipe uma forma mais segura e mais fácil também de lidar com uma ferramenta tão preciosa que é o orçamento.

Quais outras ferramentas você implementou nesse período?

Nós desenvolvemos, além da gente estar trabalhando com todo orçamento em si, buscamos diversificar e tentar trazer a sociedade para entender o que nós fazemos. O que é orçamento? O que nós fazemos? O que significa na vida do cidadão? Então você paga seu imposto e o que acontece a partir daí? O que tenho de benefícios com os impostos que eu pago? A gente tentou a partir daí trazer isso: levar o orçamento mais próximo possível da sociedade. Quais as inciativas que nós tomamos nessa época? Nós criamos, na época, uma revista chamada Sofinha e a Sua Turma. A Sofinha trazia para a família o que ela tinha aprendido na escola: como era feito o orçamento da escola, da cidade etc. Foi muito importante o contato com várias instituições de ensino, onde a gente levou essa realidade e as escolas abraçaram o projeto. Era lindo e até emocionante ver crianças falando de um tema que era muito nosso. Foi uma das coisas grandiosas que nós fizemos. Ou seja, o orçamento em si, no dia a dia, ele já é pesado demais. Então você avançar, além disso, e buscar outras situações realmente exige do gestor um trabalho adicional gigantesco. E eu fui incansável nesses projetos, sempre apostei e achava que isso era fundamental. Nós criamos, também, e isso permanece, uma revista que acompanha o projeto de lei orçamentária, no dia 31 de agosto, que é o Orçamento ao Alcance de Todos, que é exatamente isso: você passar para o cidadão uma linguagem mais acessível e não deixar naquela linguagem absolutamente técnica, que é constante do orçamento. Isso dá uma noção mais clara, tanto para o cidadão, quanto para a própria mídia, o que realmente se está propondo de política pública a cada ano.

Entrando um pouco nessa questão que você fala no início: de conciliar essa vida de mãe com a profissão. Queria que você falasse um pouco mais sobre isso. Você foi a primeira secretária da SOF que permaneceu mais tempo no cargo. Como foi conciliar a vida de mãe com a vida profissional?

Isso foi a situação mais desafiadora, embora eu nunca me vi, nunca olhei pra mim e pensei: eu posso menos ou eu não sou capaz em relação aos meus colegas do gênero oposto. Sempre olhei aquilo como uma coisa absolutamente normal, embora desafiadora pelo papel que a mulher representa. Você hoje é profissional, mas é também mãe, esposa, cuida dos seus afazeres domésticos e eu sempre fiz tudo isso. Exigiu de mim uma situação que eu acho que por um bom período eu me esqueci de mim mesma. Eu me dediquei exclusivamente aos meus filhos e a minha profissão, foi um período que a Célia Corrêa desapareceu um pouco. Tinha que esquecer um pouco de mim mesma para que eu conseguisse fazer tudo aquilo que foi feito, nunca saí absolutamente do meu bom humor, da minha alegria, sempre tratei todas as pessoas com cordialidade. Até hoje eu pergunto para os meus filhos se eu falhei como mãe nesse período. Porque o envolvimento com meu trabalho era tão expressivo. O fato de ser mulher em nenhum momento trouxe para mim fragilidade, muito pelo contrário, eu sou de uma garra e uma força enormes. Realmente é um ambiente muito masculino. Você tem que conquistar o seu espaço, mostrar que você é capaz, que você tem inteligência, que embora tenha tantas outras atividades, como em casa, mas profissionalmente, absolutamente, em nenhum momento, você é mais frágil. Longe do sexo frágil. É um sexo muito forte.

 

(Célia fala sobre a carreira)

 A carreira chegou onde estar por uma luta muito grande lá atrás. Quando ela foi criada em 1988, no início dos anos 90, nós fizemos duas greves. E ambas as situações eu estava grávida. Eu encabecei uma greve lá atrás, exatamente para fortalecer a carreira. O prédio da SOF estava caindo aos pedaços, caíam pedaços do telhado, era um carpete horroroso, não tínhamos um salário compatível pela importância do nosso trabalho, pelo tempo que a gente se dedicava a ele. Nós fizemos essa greve em 1992. Depois outra em 1994. Porque o que tinha sido prometido em 1992 não foi cumprido, então voltamos a paralisar. Então foi uma paralisação que durou mais de 40 dias e ela só parou porque nós sofremos uma intervenção militar, na época. A carreira tem uma história, eu me orgulho de fazer parte dessa história e eu lutei muito por ela, muito. Mesmo em todas as funções que eu ocupei, mesmo no período que eu fui secretária, eu continuei lutando pela carreira. Eu gostaria muito que todos que nos sucederam e os que vão nos suceder ainda tenham em mente que o que tem hoje e o que a carreira representa na vida de cada um hoje teve um preço muito alto lá atrás.  Falo isso com muita tranquilidade, com muita paz, de que tudo o que foi possível, tudo, absolutamente tudo, até iniciar uma greve, foi feito. Levo isso comigo, tenho uma paz dentro de mim, de missão cumprida. No período que fui secretária, a Assecor teve muito presente na SOF, nunca neguei em nenhum momento receber e trabalhar com a associação. A agenda da carreira sempre esteve presente. Nós, na época, tínhamos até um comitê para discutir a carreira.

Fale sobre seu cargo na Rede Sarah…

Aqui eu sou responsável pelo planejamento e orçamento da rede. É uma instituição incrível, está sendo um grande presente neste momento da minha vida: poder participar de uma organização como essa aqui. São noves hospitais muito humanizados. É um local realmente que o ser humano está acima de tudo. Todos são tratados de forma igual, não tem diferença de nenhum para o outro. Sou muito grata a SOF e a carreira. Depois que você passa pela SOF, qualquer desafio fica muito fácil. Aqui no Sarah, além de você ver o resultado do seu trabalho, ali no dia a dia, basta você chegar ali no ambulatório e ver tantos atendimentos. O resultado da rede ano passado foi magnífico, a rede atendeu ano passado o maior número de pessoas da sua história. A gente tem conseguido fazer com o recurso mais com menos. É um desafio que a gente pregava na SOF. Toda a despesa é apropriada em centro de custos. É impecável a gestão e a organização que a gente tem aqui. Está sendo uma experiência muito rica e não abandonei o tema principal da minha vida: o orçamento.