‘É preciso reconectar o Congresso ao país’

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Autor(es): RODRIGO CRAVEIRO

Aos 25 anos, Camila Vallejo se elegeu a mais jovem deputada do Chile, com 43,7% dos votos no populoso distrito de La Florida, em Santiago. A ex-presidente da Federação de Estudantes do Chile (FECH) fez fama ao articular protestos pela reforma educacional que pararam a capital chilena e ganharam a mídia internacional. Bonita, sorridente e eloquente, Camila defendeu a plataforma de governo de Michelle Bachelet acompanhada da filha, hoje com 2 meses de idade. Em entrevista exclusiva ao Correio, por e-mail, ela pediu uma transformação de paradigmas e uma ruptura com o sistema neoliberal, que “desfinanciou” a educação pública no Chile. De acordo com a deputada comunista, o governo do atual presidente, Sebastián Piñera, atende aos setores do pinochetismo e da ultradireita conservadora. A parlamentar não gosta de rótulos e abomina associações entre seu sucesso e sua beleza. “Nós vivemos em um país conservador, machista e misógino”, atacou. Camila acredita que o programa de Bachelet é resultado das demandas cobradas, nas ruas, pelos movimentos sociais.

Como você analisa o programa de reforma educacional de Michelle Bachelet?
A proposta que nós, estudantes, defendemos durante as mobilizações é uma aspiração que ultrapassa qualquer programa presidencial de quatro anos. Por um lado, pela reparação que se deve fazer ao profundo dano provocado pelo neoliberalismo à educação e a todo o nosso país. Por outro lado, pelas expectativas de uma mudança de consciência política, cultural e social que os estudantes pretendem fazer. Uma mudança de paradigmas, em que a escola seja a pedra angular. Depois de muitos anos, um programa de governo vai na direção adequada, não somente por responder às principais demandas, como a educação gratuita, mas porque levanta outras reformas estruturais que garantem uma redistribuição de recursos para a educação pública, mais impostos para as grandes empresas e o fim da Constituição Pinochetista. O programa de Bachelet é o resultado das demandas que cruzaram as barreiras da inconstitucionalidade política, que, como movimentos sociais, temos exigido das ruas.

Qual é a situação da educação no Chile e por que motivo a reforma é tão urgente?
Na década de 1980, em plena ditadura militar e sem perguntar a ninguém, o Estado foi reduzido a um mero papel subsidiário, entregando ao mercado os poderes e recursos para transformar a educação e outros direitos fundamentais em um negócio rentável. A educação pública foi imediatamente condenada ao abandono e a educação privada, destinada a uma massificação sem precedentes. Hoje, a educação pública está “desfinanciada”. No âmbito escolar, ela representa apenas 30% do total de matrículas, enquanto a educação superior pública compreende menos de 20% — uma redução que, ano após ano, se acentua, produto das reformas de privatização e mercantis. As universidades do Estado recebem menos de 15% do orçamento médio do Estado. Mais do que uma reforma, creio que uma revolução é urgente.

Quais as diferenças entre a Camila do tempo estudantil e a de hoje, que entra no mundo da política?
O fato de ter sido parte de um movimento social tão importante para a história de nosso país me fez aprender muitas coisas, entre elas como manter a unidade de um grupo enorme de pessoas, apesar das diferenças; compreender que nada é casualidade. Compreendi que nunca estivemos fora do mundo da política, pois a política sempre esteve bem envolvida com nossos assuntos, com nossos bolsos, com nossa alimentação e com nossos estudos. A diferença é que, agora, nos demos conta de que, para mudar nossa realidade para melhor, devemos disputar o poder. Um movimento social sem vocação transformadora carece de alma e de sentido, e um movimento social sem vocação de poder carece de efetividade.

Alguns estudantes do Chile veem sua eleição com um pouco de ceticismo, pois afirmam que a
possibilidade de mudança não
está no Congresso, mas no
governo central…
As transformações a nível nacional não passam nem pelo Congresso nem pelo governo, mas pelo povo do Chile. Como esquerda, não temos avançado o suficiente para gerar um movimento social capaz de exigir e levar a cabo as transformações necessárias. O Congresso, bicameral, tem sido sequestrado pelos setores mais neoliberais de nosso país. É preciso reconectar o Congresso ao país.

Muitas pessoas a veem como uma mulher bonita, que se projetou ao mundo pela luta como estudante. Sua beleza foi um obstáculo?
Nós vivemos em um país conservador, machista e misógino. Onde os direitos reprodutivos e a igualdade de gêneros são abordados como blasfêmias. Um país onde não há direito ao aborto, mesmo terapêutico; onde não existe uma cultura sexual aberta, educada e sã; onde as mulheres ganham menos que os homens por um mesmo trabalho; onde recebem pensão menor e, por isso, devem se aposentar com idades avançadas; onde são assassinadas, violentadas, abusadas nos lugares em que crescem. Em um país como este, ser mulher, ser de esquerda e ser dirigente é bastante complicado. Dá-se a maior relevância a aspectos superficiais e, obviamente, machistas, como a minha vestimenta, se lavei ou não o cabelo, se engordei, se uso uma ou outra marca de roupa.

Como você vê os anos de governo de Sebastián Piñera?
O governo de Piñera foi e é incapaz de fazer as mudanças que a maioria dos chilenos queria depois das mobilizações de 2011. Creio que, a princípio, ele jamais conseguiu dimensionar o alcance do que se sucedeu durante as mobilizações. Seu governo é lembrado por ser um cego devoto do sistema neoliberal e por estar dominado pelos setores mais retrógrados do Pinochetismo e pela ultradireita conservadora chilena.