Crédito fácil e juro alto, armadilha para servidor

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Volume de débitos do funcionalismo com os bancos é 7,5 vezes maior que a fatura dos trabalhadores da iniciativa privada

Autor(es): ANTONIO TEMÓTEO

Os servidores públicos já devem R$ 135,2 bilhões aos bancos por meio de empréstimos consignados, volume 7,5 vezes maior que os débitos de trabalhadores da iniciativa privada, segundo o Banco Central. O montante é duas vezes superior à fatura de R$ 65,7 bilhões que os beneficiários da Previdência têm pendurada com as instituições financeiras, na mesma modalidade de crédito. No acumulado do ano, os recursos a serem descontados na folha de pagamento do setor público cresceram 16,5%, acima dos 12% do total geral das operações.

Os dados surpreendem, uma vez que a soma de servidores estatutários e militares no país, conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chega a 6,9 milhões de pessoas ante 46,6 milhões de trabalhadores do setor privado e 27,7 milhões de segurados da Previdência. Dois fatores ajudam a explicar o forte endividamento do funcionalismo público: a estabilidade no emprego e o salário maior. Em setembro, a renda média dos servidores foi de R$ 3,2 mil, 84,5% acima da registrada entre os profissionais do setor privado com carteira assinada, de R$ 1,7 mil.

Supervisionados pelo Ministério do Planejamento, os empréstimos consignados do funcionalismo federal têm limite legal de comprometimento da renda de, no máximo, 30%. As dívidas podem ser pagas em até 60 parcelas. O problema, ressaltaram técnicos do Banco Central, é que boa parte dos servidores, além do consignado, acumula débitos pesados no cartão de crédito e está atolada no cheque especial, que tem as maiores taxas de juros do mercado, de 10% ao mês, em média. Também há muitos pagando prestações de carros e da casa própria.

Segundo o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, com as características diferenciadas do funcionalismo, que reduzem os riscos de calotes, os bancos se sentem mais confortáveis em emprestar para esse público. Soma-se a isso o fato de os brasileiros estarem cada vez mais informados sobre o custo do crédito, o que os leva a buscar linhas de financiamento com taxas mais baixas. Na média, os juros dos empréstimos com desconto em folha para o funcionalismo estão 22,4% ao ano, contra 88,1% anuais do crédito pessoal normal e 144,5% do cheque especial. “Percebemos que o crédito com menor custo ganha mais espaço em detrimento do mais caro”, afirma. Uma boa notícia.

Cautela
A despeito dos juros menores, o endividamento crescente dos servidores públicos merece atenção, afirma o educador financeiro Mauro Calil. Para ele, é preciso muita cautela na hora de se tomar qualquer empréstimo ou financiamento, de forma a se evitar desequilíbrios desnecessários no orçamento doméstico. O ideal, destacou, é que as pessoas — e isso vale para todos os consumidores — façam uma poupança para comprar à vista em vez de recorrerem a empréstimos para consumir. Calil destaca ainda que o endividamento, mesmo que justificável, não deve ser exagerado, pois o pagamento de prestações compromete a margem de flexibilidade da renda familiar quando surgir uma eventualidade, como uma doença.

Calil assinala que, nos casos em que os consumidores estiverem com a corda no pescoço, o ideal é verificar o saldo da dívida, qual a instituição credora, as taxas de juros que estão sendo pagas e o prazo da dívida. “Depois disso, negociem condições melhores e, se for necessário, vendam um bem, como um carro, para diminuir a dívida ou quitar o total dos débitos. As pessoas precisam seguir esse planejamento à risca, porque qualquer deslize pode comprometer a renda de toda a família”, frisa.

O servidor público João Dias do Amaral, 30 anos, se empolgou com a oferta de crédito que tinha disponível no banco após passar em um concurso. Ele se viu endividado em menos de um ano e meio de trabalho. Comprou um apartamento, trocou de carro e fez uma viagem ao exterior. Os gastos excessivos comprometeram mais de 50% do salário. Para sair do sufoco, João foi obrigado a recorrer aos pais a fim de quitar uma parte dos débitos. “Felizmente, me reequilibrei. Pago o que devo e, agora, já consigo poupar um pouquinho para qualquer necessidade”, conta.

Educação
O educador financeiro Álvaro Modernell alerta que o controle das finanças pessoais é a chave para não cair nas armadilhas do endividamento. Segundo ele, o brasileiro é impulsivo, consome de maneira exagerada — sobretudo quando passa a ganhar mais ao entrar no setor público — e, ao se dar conta, já está com o orçamento comprometido. No entender dele, o problema não está relacionado à falta de informação, pois há divulgação em massa sobre o custo do dinheiro.

Modernell aconselha que os consumidores comprometam, no máximo, 20% da renda com empréstimos e financiamentos para ter uma reserva em situações de emergência. “Em muitos casos, a pessoa só se preocupa com o valor da parcela, se esquece dos prazos alongados e das taxas de juros, que estão subindo. O certo é pensar em um processo de reeducação das clientes, para que deem mais importância aos gastos diários”, sinaliza.

Ao ter problemas com um financiamento habitacional e um empréstimo consignado, o servidor Luís Paulo Farias, 39, procurou a ajuda de um profissional para controlar as finanças. “Eu gastava compulsivamente com coisas fúteis. Mas aprendi a lição. Fiquei sem quase nada no bolso. Agora, faço uma economia mensal, inclusive para viagens”, conta.