Vale tudo

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Começa esta semana a etapa menos vi­sível da disputa eleitoral do ano que vem: um ciclo de 80 dias de votações dos orçamentos de 2014 para a União, os estados e os municípios.

Autor(es): José Casado

O acordo entre Marina Silva (Rede) e Eduardo Campos (PSB) embaralhou o jogo dos partidos pela Presidência, governos estaduais e bancadas legislativas. A pressão dos aliados de Dilma Rousseff (PT), que batalha pela reeleição, e as ! novas composições regionais acirram a compe­tiçãopelo acesso privilegiado ao Tesouro, em to­dos os níveis. O prêmio é o “direito” de gastar o dinheiro alheio sem ser incomodado.

Vale tudo, só não vale transparência. Veja-se o caso do Orçamento da União, mais enigmático a cada eleição. A gestão Dilma acentuou o obscu­rantismo ao classificar 98% das despesas deste ano com um “não atribuído” a qualquer plano orçamentário. E foi além, com uma miríade de projetos-fantasia (os Brasis “Sem Miséria”, “Cari­nhoso”, “Sorridente”, “Verde” etc.), sem relação direta com as políticas já definidas pelo próprio governo. Deixou perdidos analistas do Congres­so, do Tribunal de Contas e de organizações in­dependentes como Contas Abertas.

Nesse trevor orçamentário, multiplicam-se as transferências de recursos do governo federal a “entidades privadas sem fins lucrativos” (ONGs, fundações e partidos políticos, entre outros).

Já são 87.399 convênios e contratos com mais de sete mil entidades privadas. Custaram R$

13,7 bilhões até 2012. É dinheiro equivalente a meio Bolsa Família e 30% mais que o capital in­vestido pelo BNDES no grupo de Eike Batista. A conta aumentou em R$ 3,7 bilhões nos primei­ros nove meses deste ano.

Falta “uma atuação mais contundente” do go­verno na fiscalização, acha o TCU. O acervo so­bre o descontrole mostra que 43% dos contratos (38.321 convênios) foram feitos sem um plano de trabalho dos agentes privados beneficiários. Quatro mil entidades não apresentaram contas nos últimos cinco anos. Frágil, o sistema mistura a minoria de entidades sérias com as outras.

Na véspera de eleições, só não vale transparência no acesso privilegiado ao dinheiro público

Há, também, evidências de avanço da “po­lítica uterina” — autoridades atuando em be­nefício próprio ou de parentes até segundo grau. Por amostragem, identificaram-se 134 casos de repasses a entidades privadas dirigi­das por juizes, procuradores, deputados, pre­feitos e vereadores, ou seus parentes, nos es­tados do Rio, de São Paulo, Minas Gerais, Es­pírito Santo, Bahia, Rio Grande do Sul, Para­ná, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Nor­te, Mato Grosso, Acre, Alagoas e Sergipe. O TCU mantém nomes em sigilo, e decidiu en­viá-los à Justiça e à polícia. Entre os achados há uma entidade privada dirigida pelo secre­tário de um deputado federal, autor da emen­da orçamentária que a privilegiou com di­nheiro público. Qualquer semelhança com a ficção, claro, é pura coincidência.