Visão do Correio :: Conter inflação estimula varejo

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surpreendente crescimento das vendas do varejo em ju­lho, de 1,9% em relação ao mês anterior, é algo a ser co­memorado. Deve pesar posi­tivamente no cálculo do PIB do tri­mestre, mas ainda é cedo para ver no bom desempenho a recuperação do consumo no país. Afinal, todos os se­tores da economia têm registrado nos últimos meses comportamento erráti­co, ora com altas animadoras, ora com quedas frustrantes.
Mas os dados divulgados semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vão além do registro do melhor julho para o vare­jo desde 2011. Dão a boa notícia de que o crescimento se deu na maior parte do país. Somente o Acre teve resultado ne­gativo, com queda de 1,7% no volume de vendas em relação a junho.
O adiamento para julho de parte das compras em junho, por causa das manifestações de rua, é uma das ex­plicações. Mas não pode passar des­percebida a lição de que a inflação tem ligação direta com a disposição de consumo e, portanto, com o nível da atividade econômica do país. Os índi­ces de crescimento das vendas do va­rejo cotejados com a evolução da in­flação no mesmo período comprovam essa realidade, que, muitas vezes, é atropelada por formuladores menos cuidadosos da política econômica.
Em maio, segundo o IBGE, a infla­ção medida pelo índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) havia su­bido 0,37%, empurrando o acumula­do em 12 meses para o teto da meta fixada para o ano, 6,5%. Naquele mês, as vendas do comércio tiveram desalentador crescimento de 0,3%. Em junho, não foi diferente. Com a alta da inflação de 0,26% no mês, o acu­mulado estourou a meta, chegando a 6,7%, enquanto as vendas do vare­jo continuavam emperradas em 0,4% de expansão.
O quadro mudou em julho. O au­mento dos preços perdeu força e aca­bou fechando o mês em 0,03%, o mais baixo índice de julho desde 2010. Está aí uma das razões mais consistentes para o desempenho do varejo, reforça­da pela análise dos setores que tiveram destaque no aumento das vendas. É o caso de tecidos, vestuário e calçados (5,4%); outros artigos de uso pessoal e doméstico (3,9%); equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (3,5%); e hipermerca­dos, supermercados, produtos alimen­tícios, bebidas e fumo, que têm peso significativo no índice e no orçamento das famílias (1,8%). São artigos que de­pendem menos do crédito e mais da disposição dos consumidores.
Também pesaram as vendas de móveis e eletrodomésticos, com cres­cimento de 2,6%, com a contribuição do programa Minha Casa Melhor. Mas o que realmente prevalece é a impor­tância de manter severo controle da inflação. Fica clara a urgência de as autoridades manejarem as políticas fiscal e monetária no sentido da con­vergência dos índices para o centro da meta de 4,5%. Apesar de ser um dos índices mais altos do mundo emer­gente e desenvolvido, alcançá-lo seria a comprovação de que o país é capaz de cumprir metas e compromissos.