Ano novo, mundo novo: o que a invasão da Venezuela deve ensinar ao Brasil

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O ano de 2026 começou sombrio na América Latina. Um grande e inescapável sinal de alerta foi dado com a destituição ilegal de Nicolás Maduro na Venezuela, em ação militar baseada não no direito internacional, mas em leis e investigações exclusivamente estadunidenses.

O sinal de alerta vale para todos os países periféricos que, de uma hora para outra, podem se tornar alvo do poderio militar do agressor do Norte.

Naturalmente, o Brasil estará sempre na mira. Goste-se ou não do regime criado por Hugo Chávez na Venezuela décadas atrás, ou de sua consequência recente encarnada na figura de Maduro, o certo é que a Venezuela sempre foi detentora da maior reserva de petróleo inexplorado em todo o mundo. Além disso, há reservas minerais significativas lá, como o ouro.

Não é necessário questionar se o interesse econômico por petróleo está por trás da operação militar que destituiu Maduro: o próprio Donald Trump disse isso, candidamente, após o sequestro do presidente. E aí surge a questão: como fica a situação em países igualmente detentores de grandes reservas de petróleo e outros minérios valiosos, cuja indústria está solapada e o setor de Defesa ficou incapaz de empreender uma dissuasão efetiva?

Pois esse é o caso do Brasil. Três décadas de “disciplina fiscal” nos fizeram perder a quase totalidade de nossa indústria. Hoje, vemos nossas infraestruturas essenciais ainda aquém da capacidade necessária sequer para atendimento da população. E nossas Forças Armadas, desequipadas e mal estruturadas, certamente não estão à altura de um desafio como o que a Venezuela acaba de enfrentar (e para o qual também não estava preparada).

Os tempos em que Imperialismo era considerado uma ideia delirante de militantes ultrapassados acabaram. O Imperialismo está aí à mostra para quem quiser ver. Cabe agora ao nosso governo tomar uma atitude corajosa em defesa do Brasil: desamarrar o país dos rigores fiscais exagerados e permitir o crescimento contínuo da economia, não apenas por meio de estímulos ao consumo doméstico, mas pela recuperação da nossa base produtiva.

Sem tecnologias próprias, grandes empresas nacionais, infraestrutura e forças de Defesa capazes e bem estruturadas, estamos na condição de alvo fácil. Infelizmente, um eventual processo de interferência estadunidense no Brasil hoje nos encontraria bastante fragilizados.

É hora de retomar as capacidades desenvolvimentistas do Estado, e controlar novamente os circuitos econômicos a fim de direcionar o capital nacional para a produção industrial e de tecnologias. É hora de deixarmos de ser o paraíso do rentismo (nacional e internacional) e reconstituir nossas forças internas. É hora de repensar, inclusive, nossa adesão a um tratado de não proliferação de armas nucleares que serviu apenas para definir quem ficaria vulnerável ao Império e quem faria frente contra ele.

Nossa dignidade nacional merece nossa preocupação, tanto quanto mereceu nossa preocupação a democracia, quando sentimos que ela estava ameaçada. Esta é uma luta mais difícil do que aquela, porque para ela estamos francamente despreparados. Para preparar-nos, é preciso desfazer agora as amarras impostas ao investimento público e à ação do Estado sobre a economia.

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Marco Antonio Oliveira, analista de Planejamento e Orçamento, Presidente da Assecor.