O cartão de crédito vai estourar

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Desde 2005, Brasil gasta demais e perde a corrida da eficiência; assim, deficit externo cresce

DESDE 2007, o Brasil voltou a consumir “demais”, compra mais do que vende, paga mais do que recebe, tem deficit externo (nas transações correntes, no jargão). É o padrão normal da nossa história. O superavit externo entre 2003 e 2007 foi uma raridade.

Agora, estamos à beira de ter deficit também no comércio, de importar mais que exportar (a balança comercial é uma parte das contas das transações correntes). Existe uma conversa sobre os motivos preocupantes da piora das nossas contas externas. Fala-se com nervosismo da alta das importações de combustíveis ou da baixa das exportações para a Argentina, por exemplo.

Mas isso é café pequeno. O grosso do problema vem de longe.

Tínhamos superavit comercial folgado porque consumíamos pouco aqui dentro. Em 2003, andávamos na pindaíba, o desemprego batia em 12%. Por outro lado, o mundo passava a consumir mais do que produzíamos, pagando mais também.

O ano de 2005 foi o auge da nossa balança comercial. A diferença entre exportações e importações era positiva, equivalente a 5% do PIB, do tamanho da economia. Agora, em fevereiro, o saldo comercial chegou a praticamente zero.

Sim, passamos a importar mais. Mas, desde janeiro de 2005, o salto das importações foi de uns 1,5% do PIB. As exportações caíram 3,5% do PIB. A baixa nas exportações deveu-se à queda das vendas da indústria.

Os motivos do tombo são diversos, embora entrelaçados.

Por exemplo, passamos a consumir mais aqui –sobra menos para exportar, digamos. Mais importante, nossos produtos ficaram caros, tanto porque o real ficou caro como porque os custos aumentaram (houve inflação). Além do mais, o mercado mundial para produtos industriais andou em baixa, por excesso de oferta, devido à crise mundial.

As causas da derrocada são uma política econômica ruim (inflação e deficit público crescente), problemas crônicos (impostos errados e infraestrutura péssima) e empresas que gostam de se encostar no governo, em busca de proteções, para ficar num resumo curto e grosso.

O aumento da importação não foi desimportante (e, claro, em parte tem a mesma causa da baixa de exportações: nossos produtos são caros). De 2005 para cá, o consumo de bens duráveis aumentou mais de 0,5% do PIB, alta forte, pois bens duráveis representam menos de 10% do total das nossas importações.

Mas o resumo da ópera é que consumimos além da conta, a eficiência é baixa e a política econômica é ruim.

Enfim, toda essa história de deficit externo e deficit comercial parece grave por dar a impressão de que estamos “no prejuízo”. Porém, consumir mais do que produzir (ter deficit externo) pode ser interessante ou um desastre.

A fim de consumir mais do que produzimos, precisamos financiar a diferença no exterior. Até um certo ponto, até certo nível de deficit, os credores nos dão crédito. Agora, chegamos num nível de deficit chatinho, ainda mais porque a economia cresce pouco e está desarranjada. Pode faltar algum crédito.

Isso acaba por causar uma desvalorização do real e ajuda a reduzir nossa capacidade de consumo. Nada grave, pelo menos por ora. Ruim mesmo é não dar conta dos desarranjos que têm causado avarias econômicas, externas e internas.