Criação de empregos é a menor desde 2003

82

Autor(es): VERA BATISTA

O Brasil criou, em 2013, 1,117 milhão de novos empregos formais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, considerando-se as 22,092 milhões de admissões e 20,975 milhões de demissões. Esse foi o pior resultado desde 2003, — com saldo de 860,8 mil posições — e representa uma queda de 14,1% em relação a 2012, quando foram abertas 1,372 milhão de vagas.

O setor de serviços aparece na liderança, com 546.917 postos, resultado inferior aos 666.160 de 2012. A indústria de transformação teve a entrada de 126.359 trabalhadores, em 2013, alta considerável sobre os 86.406 no ano anterior. Por região, o Centro-Oeste teve a maior expansão percentual (4,23%) e 127,7 mil empregos, seguido pelo Sul (3,64%), com 257mil, e pelo Norte (3,43%), com 62.318 novos trabalhadores com carteira assinada.

Mesmo diante das evidências de desaquecimento, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, manteve o otimismo. “Em meio à crise global, conseguimos o milagre de não sermos afetados por essa onda. O mundo fica perplexo”. Ele prometeu que vai “rezar para o Brasil gerar mais empregos”. Em suas previsões, 2014 se encerrará com algo entre 1,4 milhão a 1,5 milhão de novas vagas, em comparação a 2013. “Mesmo com a desaceleração em 2013, o mercado demonstrou força nos últimos cinco meses. É um indicativo de que continuaremos crescendo”, disse.

Dias ressaltou que governos de outros países querem entender por que, no Brasil, “apesar do pequeno crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), o número de vagas sobe”. Segundo ele, a despeito da perspectiva de elevação da taxa de juros pelo Banco Central (BC) para conter o custo de vida, “o governo jamais vai desacelerar o mercado de trabalho para reduzir a inflação”.

A expectativa não é só do ministro. Desempregado há duas semanas, o pintor automotivo Célio Roberto Pereira Costa, 37 anos, procura novo trabalho para evitar que a mulher, a babá Gizele Ferreira dos Santos, 35, tenha que arcar com todas as despesas domésticas. Só de aluguel, o casal paga R$ 600, o equivalente a 60% do orçamento. “Se não cumprir com os compromissos, depois, os custos ficarão altíssimos”, avaliou. Para Célio, o salário, ao longo de 12 anos de trabalho, não acompanhou a inflação. Os preços pesam cada dia mais no bolso dele.

Pressão dos preços
“Quando iniciei na área de funilaria automotiva, pagavam algo em torno de R$ 600. No meu último salário, recebi R$ 2,8 mil, mas o custo de vida está cada vez mais alto”. Assim como o marido, Gizele está há mais de uma década na mesma área. Ela diz ser fácil conseguir emprego, mas se queixa. “Demorei dois dias para arrumar um novo trabalho. Mas é chato lidar com tanta responsabilidade recebendo, em média, R$ 1,1 mil”, disse ela, que há três meses era monitora de crianças em uma escola.

A busca por melhor qualidade de vida trouxe a maranhense Surama Fernandes, 22, para Brasília. Natural de Passagem Franca, ela trocou o cargo de vendedora em uma loja de calçados, onde recebia cerca de R$ 250, sem carteira assinada, para ser recepcionista auxiliar em um consultório odontológico na capital federal, onde trabalhou de fevereiro a dezembro do ano passado, recebendo R$ 740.

Agora, mesmo com a indicação de um colega para trabalhar em um laboratório odontológico, Surama pesquisa com cautela as opções para um novo emprego. “Quero avaliar as melhores propostas para ver se ainda neste semestre consigo começar a faculdade”, disse, ao revelar que ainda está indecisa entre um curso de enfermagem ou de serviço social.