Inovar para sobreviver

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O Brasil é um país de empreendedores. O histórico de evolução dos pequenos negócios não deixa dúvida quanto a isso. Em 2008, eram cerca de 3 milhões de micro e pequenas empresas. Neste início de 2014, temos aproximadamente 8 milhões e a tendência é que esse crescimento siga firme, chegando a algo próximo a 13 milhões até 2022. O principal fator que vai contribuir para a permanência e o desenvolvimento dessas empresas no mercado será a capacidade de inovar.

A multiplicação dos pequenos negócios é um ótimo indicador para nossa economia, pois representam 99% das empresas no Brasil e respondem por mais da metade das vagas formais de trabalho. Esse crescimento tem sido estimulado por critérios como o aumento da escolaridade dos empreendedores, pela inclusão de cerca de 40 milhões de pessoas na classe média, fortalecendo o potencial do mercado consumidor interno, e por um ambiente legal mais favorável.

Em termos quantitativos, portanto, o cenário é muito positivo. Em termos qualitativos, relacionados à excelência de gestão e à adoção de práticas e processos inovadores, os pequenos negócios avançaram muito, mas precisamos intensificar esse processo. Eis, portanto, uma boa meta para os empreendedores em 2014.

E o que é inovar? No Sebrae, temos como referência o conceito de inovação do Manual de Oslo, publicado pela Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE): “É a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas”. Esse conceito tem um sentido muito prático e flexível, o que é adequado para o perfil heterogêneo do nosso público formado por empresários de pequeno porte.

Para a economia brasileira, é muito estratégico que o empreendedorismo se desenvolva e que as empresas cresçam de forma sustentada, gerando mais renda e mais emprego. Por isso elegemos, no Sebrae, a inovação como um dos eixos centrais de atuação com os pequenos negócios. É a inovação que vai sustentar o crescimento das micro e pequenas empresas.

Em 2011, aumentamos de 15% para 20% o percentual mínimo do orçamento do Sebrae para apoiar as micro e pequenas empresas a executar ações de inovação e tecnologia, mas sempre superamos a meta. Em 2013 aplicamos mais de 35% do orçamento institucional para atender mais de 160 mil pequenos negócios, em todo o país, com soluções de inovação. Buscamos desmistificar a concepção que alguns empreendedores têm de que inovação exige altos recursos ou que se limita a equipamentos tecnológicos. A inovação em processos de gestão e a simples adoção de boas práticas, por exemplo, pode garantir maior produtividade e redução de custos.

Temos duas frentes de ação para aumentar a inovação nos pequenos negócios. A primeira é a sensibilização dos empresários para a importância de inovar para o crescimento do negócio. Incorporar a inovação no dia a dia dos pequenos negócios, de forma continuada, é a motivação do Programa Agentes Locais de Inovação (ALI), realizado em parceria com o CNPq. Jovens que se graduaram há no máximo três anos estão à frente desse trabalho. Esses agentes acompanham gratuitamente, por até dois anos, pequenas empresas em todo o país. Elas são avaliadas por meio do radar de inovação, que aponta as áreas de maior desafio para o negócio inovar e evoluir. Em 2013, o programa acompanhou mais de 44 mil empresas no país — quase oito vezes mais do que em 2010.

A segunda frente de ação é viabilizar o acesso do pequeno negócio à inovação, o que ocorre por meio do programa Sebraetec, que reúne mais de 1.400 instituições credenciadas no Brasil para apoiar inovações customizadas para a realidade e a necessidade de cada empresa. Nesse ano, o programa atendeu mais de 78 mil pequenos negócios, com 80% do valor das consultorias subsidiado pelo Sebrae. Nossas pesquisas mostram que um quarto das empresas que buscaram o Sebraetec aumentou seu lucro em mais de 25%.

Também oferecemos suporte aos negócios de base tecnológica, por meio da qualificação de 152 incubadoras de empresas. Elas foram selecionadas em edital, lançado pelo Sebrae em parceria com a Anprotec, para a aplicação da metodologia Cerne — Centro de Referência para Apoio a Novos Empreendimentos —, que reúne boas práticas de gestão. Esse apoio tem efeito multiplicador muito positivo. Qualificando as incubadoras, apoiamos simultaneamente as mais de 2 mil empresas incubadas e associadas.

O povo brasileiro reúne muitas características ideais para empreender, como a criatividade que se manifesta na música e no esporte. Hoje, há muito mais brasileiros que sonham abrir o próprio negócio do que fazer carreira em uma empresa. Oportunidades para concretizar esse sonho não faltam, especialmente com os grandes eventos pela frente, como a Copa do Mundo e as eleições, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016. Esses eventos terão prazo para começar e para acabar, mas as oportunidades de crescimento podem ser duradouras. Só será beneficiado nesse contexto, porém, quem estiver dando o devido valor à capacitação e à inovação.