Para analistas, desigualdade começa a cair mais devagar

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Autor(es): Lucianne Carneiro

O Globo – 15/03/2013

 

 

Sem avanço na educação, distribuição de renda ficará estacionada

Apesar de o Brasil ser citado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) como exemplo de redução de desigualdade, especialistas alertam que há sinais de desaceleração nesse processo e que é preciso agir para evitar uma parada.

No ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ajustado pela desigualdade, o Brasil ocupa o 97º lugar, com IDH de 0,531, 12 posições atrás em relação ao IDH convencional. O país fica abaixo do índice médio da América Latina (0,555) e de países como México (0,593), Peru (0,561), Jamaica (0,591) e Panamá (0,588), e à frente apenas da Colômbia (0,519) no grupo dos países de desenvolvimento humano elevado. A desigualdade provoca uma perda de 27,2% do IDH do Brasil. O Brasil é o 13º mais desigual do mundo, segundo o índice de Gini (0,547), medida de desigualdade.

– Aqui se passa por uma queda dramática de desigualdade, mas há sinais de desaceleração esperados. O impacto dos programas de transferência de renda só ocorre uma vez, a menos que se continue incluindo mais gente ou aumentando o valor. Outro fator é o aumento da produtividade da força de trabalho, que parece estar desacelerando – diz o professor da Faculdade de Economia da USP em Ribeirão Preto Daniel dos Santos.

Para Marcelo Medeiros, professor da Universidade de Brasília (UnB) Marcelo Medeiros e especialista no tema, já há sinais de que a desigualdade pode parar de cair:

– De um lado, a educação não contribui mais tanto para reduzir a desigualdade porque está mais disseminada. De outro, as políticas sociais não têm mais tanto impacto sobre desigualdade quanto tinham nos anos 2000. Se nada for feito, principalmente na melhoria da qualidade da educação, a desigualdade pode parar de cair.

Na avaliação do professor da Universidade de Cambridge e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Flávio Comim, a desigualdade afeta o impacto das políticas públicas em renda, educação e saúde, apesar dos avanços recentes.

Brasileiros como a catadora de material reciclável Maria de Fátima Xavier, de 49 anos, ainda sofrem com a dura realidade brasileira. Ela mora com a filha e três netos numa uma palafita alugada na comunidade Roque III, na Ilha de Joana Bezerra, em Recife. Na palafita de apenas um cômodo, cabe um colchão, uma cama, uma televisão e um fogão, além de um vão entre estes objetos para as crianças brincarem, mesmo lugar onde passam ratos e baratas. Tudo no mesmo cômodo. Parte do piso está cedendo pela umidade da beira do rio. Uma pequena parte é reservada para o banheiro, sem porta, que tem apenas um balde para os dejetos.

– Recebo R$ 102 do Bolsa Família e pago R$ 100 de aluguel. Ou seja, sobra R$ 2 para vivermos. Tem dia que tem nem o que comer – conta Maria de Fátima, que recolhe latas de metal nas ruas e lixeiras e revende para engordar o orçamento.

Presidente do Ipea vê avanços

O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri, discorda da avaliação de redução no ritmo de redução da desigualdade. Ele cita que a renda do trabalho avançou 5,1% em 2012, segundo dados do Ipea, ritmo superior à média de 4,33% registrada entre 2003 e 2011. Já a renda do Bolsa Família subiu 12,8% no ano passado, para uma alta de 12,4% no período de 2003 a 2011.

– A desigualdade brasileira continua em queda. É razoável o argumento de que um programa de governo cresça a um ritmo mais alto no começo, mas já têm sido feitas expansões do Bolsa Família – defende Neri.