Era uma vez, um PIB…

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O PIB brasileiro crescia na Era Lula 2 (2006 a 2010), em média por ano, 4,5%. Em 2010, cresceu 7,5%. No início de 2011, o Governo tomou uma decisão correta: desacelerar o ritmo de crescimento econômico. O objetivo era neutralizar parte da inflação que era causada pelo excesso de demanda. Mas, também, objetivava-se recompor as taxas de crescimento do PIB aumentando a taxa de crescimento do investimento e reduzindo a taxa de crescimento do consumo das famílias. Reduzir o crescimento da economia, em 2011, para algo entre 4,5 e 5% era desejável.

O Governo tomou um conjunto de medidas restritivas. Fez, em fevereiro, um corte preventivo de R$ 50 bilhões em gastos previstos. Depois, elevou a meta de superávit primário em R$ 10 bilhões. Mais ainda, reduziu o aporte de recursos do Tesouro ao BNDES. E o Banco Central? Elevou a taxa de juros Selic em cinco reuniões consecutivas, de janeiro a julho. A taxa Selic alcançou 12,5% ao ano. Além disso, o Banco Central adotou medidas macro prudenciais para conter a expansão do crédito. A elevação dos juros Selic e o ambiente de austeridade atraíram recursos estrangeiros especulativos que valorizaram a taxa de câmbio, comprimindo produção e planos industriais.

Política econômica deve ser feita com paciência, cuidado, cautela e “canja de galinha”. Mas, as medidas adotadas no primeiro semestre pareciam ser excessivas: davam uma freada brusca na economia. Em trajetória de frenagem, a economia foi atingida pela crise financeira européia. O canal inicial de contaminação é o canal das expectativas, do humor e do desânimo. Em meados do mês de setembro, a crise das dívidas européias foi percebida pelo mundo. Os efeitos econômicos efetivos ainda estão por vir. Em breve, o crédito internacional vai secar, o valor das exportações de commodities vai cair, a pressão de produtos importados sobre o mercado doméstico vai aumentar e o investimento privado vai ser reduzido.

É preciso, portanto, deixar claro que o PIB nulo do terceiro trimestre, quando comparado com o PIB do trimestre anterior, não tem nada a ver com a crise financeira internacional. A crise se espraiou pelo mundo somente nos últimos quinze dias do trimestre. A responsável pelo resultado pífio foi, quase que exclusivamente, a política econômica adotada no primeiro semestre. O PIB do terceiro trimestre, comparado com o PIB do trimestre anterior, mostrou uma contração da indústria de transformação de 1,4% e do comércio, de 1%. Foi um desastre este PIB. Basta comparar o resultado nulo do Brasil com os resultados de alguns países da Europa (em crise). A União Européia cresceu 0,2%, a Espanha, 0%, a França, 0,4%, Reino Unido, 0,5% e a Alemanha, 0,5%. 

No último ano de Governo FHC, em 2002, a economia cresceu 2,7%. Em 2011, o PIB crescerá algo semelhante. O Brasil fará um pibinho. O Governo da presidente Dilma sabe que o País não pode voltar a era dos pibinhos de FHC, quando a economia crescia em média por ano, 2,3%.

Para reagir, desde o final de agosto, o Banco Central iniciou um processo de redução da taxa de juros Selic. Recentemente, o Governo adotou medidas de isenções tributárias para a linha branca e fez um alívio no custo do crédito ao consumo. A Caixa disponibilizou recursos para fins de crédito pessoal. Foi dado também um incentivo fiscal para a construção de casas populares. O Plano Brasil Maior, um plano excelente, lançado em agosto pela presidente Dilma, tem o mesmo caráter: desonerar e reduzir juros para a atividade empresarial. 

Essas medidas, contudo, não serão suficientes para enfrentar a crise. O mundo desenvolvido adormeceu: Europa em crise, Estados Unidos atolado e o Japão, há décadas, somente suspira. A China e os asiáticos vão atacar com voracidade o nosso mercado doméstico e a nossa indústria. O Governo sabe disso, mas vai esperar os impactos que serão positivos do aumento vigoroso de mais de 14% do salário mínimo, que ocorrerá em janeiro, para reavaliar sua política econômica. Medidas fiscais mais arrojadas serão necessárias, assim como medidas excepcionais de defesa da indústria. O ano de 2012 será um ano de enormes preocupações e fortes emoções. De tédio, não morreremos. Há uma preocupação política no ar: o Brasil não poderá repetir em 2012 o pibinho que fará em 2011.

 

(*) Professor-Doutor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.